Existe problema filosófico no ensino de filosofia?
Existe problema filosófico
no ensino de filosofia?
T.S. Ferreirai
Quando adentramos na situação do ensino de filosofia nas instituições educacionais brasileiras, as muitas dificuldades presentes no ofício de qualquer atividade docente parecem saltar aos olhos. Tais dificuldades, somadas ao complicado estado da filosofia enquanto matéria formal no currículo de ensino nacional, geraram, na percepção de alguns, uma nova classe de problemas que ultrapassam os percalços de uma sala de aula e se instauram como algo particularmente voltado a natureza da disciplina de Filosofia. Essas percepções, em alguma medida, geraram dois gruposii que se diferenciam em um aspecto central sobre a natureza do problema do ensino de filosofia: um primeiro grupo que acredita na existência de um problema específico do ensino, como já mencionado anteriormente, e um segundo grupo que consiste na negação deste problema. Sobre as reivindicações do primeiro grupo, sabe-se que se sustentam sobre a premissa de que a própria noção de filosofia é um problema filosóficoiii, ou seja, que para o exercício de uma disciplina de filosofia já seria necessária certa atividade filosófica. Isso se deve ao fato de que, recorrentemente, a tradição se desdobra na tentativa de conceituar adequadamente o que se entende por filosofia. Assim, devido às muitas conceituações distintas e à falta de uma “vitória incontestável” por parte de qualquer uma delas, gerou-se um problema metodológico na concepção de uma disciplina de filosofia. Afinal, como seria possível ensinar algum conhecimento cuja definição exata ainda não é certa? Não obstante, há um segundo grupo que, diferente do primeiro, não considera tal premissa um grande empecilho, e os motivos para essa crença são diversos. Logo, recomenda-
-se que, antes de qualquer afirmação sobre os problemas do ensino de Filosofia, um desses grupos seja escolhido.
Independentemente do lado assumido na “guerra”, a questão a ser tomada como central é a seguinte: “existe um problema filosófico no ensino de filosofia?”. Muitos poderiam afirmar que já existe evidência da existência de um problema filosófico na simples dificuldade em delimitar esta pergunta ou que a própria discordância entre os dois grupos anteriormente explicitados já configura um problema filosófico. Todavia, é falacioso considerar que a presença de alguma discordância sobre a existência de um problema seja evidência suficiente para configurar um problema de caráter filosófico. Caso contrário, muito do que classificamos por ciência seria também inerentemente filosófico, isso pode ser muito bem observado nas ciências humanas e mais difícil de perceber nas ciências naturais. Contudo, não seria de muitas ressalvas assumir a posição que considera “problemas filosóficos” como intrinsecamente “problemas conceituais”iv, pois grande parte do conhecimento acadêmico, produzido no Brasil, está voltado às discussões conceituais referentes à obra de algum ator, resumida na academia como “conceito de X em Y” (negar tal premissa seria assumir que no Brasil existe pouca ou nenhuma Filosofia). Tendo isto em mente, a pergunta pode ser simplificada como: “O problema no ensino de filosofia é conceitual?”. De algum modo, pode- se dizer que a premissa a qual se sustenta o argumento do primeiro grupo, aquela a respeito da imprecisão do conceito de filosofia, é um problema genuinamente conceitual. Entretanto, uma objeção comum é atentar para a falsa relação entre premissas e conclusão. Se fôssemos
reescrever o argumento, conseguiríamos algo próximo a isso: P1) O ensino de filosofia depende do conceito de filosofia, P2) O conceito de filosofia envolve um problema conceitual, P3) Problemas conceituais são filosóficos e C) O ensino de filosofia depende de um problema filosófico. Este argumento é logicamente válido. Contudo, a conclusão só nos permite afirmar uma relação de dependência entre o ensino de filosofia e a iminente resolução de um problema filosófico, o conceito de filosofia. A partir disso, o termo chave é “depende de” e precisa ser melhor compreendido para a extração de alguma resposta satisfatória. Quando tratamos de dependência, o que está sendo posto é a subsistência de algum X em relação a algum Y, de forma que X não subsiste (existe) sem relação à Y (ou longe de Y). Em outras palavras, o ensino de filosofia não subsiste sem a definição do conceito de filosofia ou, de outra forma, que é impossível ensinar filosofia sem antes perpassar pelo conceito de filosofia. Portanto, esse é o argumento de defesa da posição que considera o ensino de filosofia um problema filosófico.
Por outro lado, há aqueles, como mencionado anteriormente, que não consideram o problema do ensino de filosofia um problema filosófico. Estes não necessariamente precisam negar o problema conceitual inerente ao conceito de filosofia para refutar o “problema do ensino de filosofia”. Visto que, tomada alguma posição dentre as possíveis de se interpretar o conceito de filosofia, o ensino ocorre normalmente, ou seja, semelhante a qualquer outra disciplina ensinada nas escolas. Nessa perspectiva, o grupo pode argumentar que esse problema, na verdade, é meramente um problema de didática de ensino, portanto é de responsabilidade das áreas de educação e das didáticas gerais, como a pedagogia. Por sua vez, não existiria nenhuma evidência de que o ensino de filosofia possui uma particularidade metodológica que justificaria qualquer necessidade que a diferenciasse, em pesquisas ou metodologias, das demais disciplinas. Em concomitância, há a existência de uma área que preferencialmente já cuida dos problemas relacionados ao ensino e que, em essência, é sustentada por algum uso da filosofia, a Filosofia da Educação. Assim, presente em todos os cursos de licenciatura, mas inacreditavelmente ausente na licenciatura em filosofia, a Filosofia da Educação, na perspectiva do grupo que nega a peculiaridade do ensino em filosofia aqui avaliada, já estaria responsável por solucioná-lo. Logo, a diferença entre os dois grupos não está na negação de um problema conceitual no próprio conceito de filosofia, mas sim na relevância deste problema para o ensino da disciplina. Ainda que ambos concordem com a especificidade da filosofia em se desdobrar sobre seu próprio conceito, não é unânime a opinião que considera este problema como algo que perpassa o ensino da disciplina.
Após analisadas as duas perspectivas tomadas recorrentemente sobre o ensino de filosofia, outro ponto a ser observado são as consequências de cada posição. Se considerarmos como correta a primeira, a que considera a existência de um “problema filosófico do ensino de Filosofia”, será necessário encontrar alguma objetividade em um problema essencialmente filosófico; acarretando certa estranheza se considerarmos a baixa pretensão da filosofia em oferecer respostas concretasv. Não que esta seja incapaz de resolver objetivamente seus problemas, os analíticos comprovam esse pontovi, mas a objetividade parece ser inimiga da defesa recorrentemente feita à presença da filosofia na escola básica. É comum argumentar que só a filosofia consegue se aprofundar em questões que, de alguma forma, desenvolvem um senso crítico nos alunos, pois, a grosso modo, não se espera nenhum produto
particularmente filosófico. Por ser uma disciplina livre das obrigações de apresentar algo “concreto”, como a capacidade de ler e escrever ou realizar cálculos, a filosofia trabalha com alguns aspectos ligados ao “caráter” (no sentido de alguma ação ou comportamento esperado da parte dos alunos) a ser cultivado nos estudantes. Espera-se que esses aprendam a exercer cidadania e adquiram uma consciência crítica sobre o mundo, atitudes essas que podem ser interpretadas de formas distintas e que parecem ser, muitas vezes, delimitadas pela negação; ou seja, como “X não é Y” ao invés de “X é um elemento desejável da vida humana”. Isso implicaria certa responsabilidade primária da filosofia na formação do caráter da comunidade escolar em detrimento de outras disciplinas, aparentando que, na presença de algum comportamento indesejável por parte dos alunos, é a filosofia que deve corrigi-lo. É evidente que esse argumento é um simples exagero e que, muito dificilmente, seria sustentado por qualquer pessoa. Assim, provavelmente, a filosofia se encontra no meio de algumas dessas posições e exigências, por isso a dificuldade de delimitá-la no cenário da educação. Seja como for, as consequências dessa posição se estendem para o ambiente da sala de aula enquanto promovem algumas dificuldades metodológicas que outras disciplinas parecem facilmente superar, como: “O que se ensina?” e “O que se avalia?” (muito diferente de outras disciplinas que se preocupam mais com “Como se ensina?” e “Como se avalia?”; questões também fundamentas à filosofia, por ser comum a todas as disciplinas). Então, ainda que essas questões fossem entendidas como um desafio do ensino de filosofia, observa-se que, estranhamente, competem ao âmbito do Ensino na totalidade, ou seja, que questões sobre “O que se ensina?” e “O que se avalia?” são feitas às entidades de ensino, perguntando sobre a importância da existência dessas instituições. Dessa forma, parece ser gerado um atrito entre as funções; uma disciplina não deveria se preocupar com questões relativas à instituição de ensino, cabe às disciplinas atentarem-se às questões relativas à transmissão de seus conhecimentos específicos através das aulas e atividades. Em outras palavras, essa perspectiva parece colocar a responsabilidades que não estão sobre o domínio de ação da filosofia e que, ainda que essas questões sejam colocadas e que proporcionem reflexões desejáveis, carecem de alguma forma de efetivá-las na realidade, pois não cabem às disciplinas esse poder, muito menos aos alunos.
De igual modo, também recai sobre a perspectiva que considera a existência de um problema filosófico no ensino de filosofia obstáculos sobre a própria definição de uma “aula de filosofia” na educação básica. Este problema se revela ao tomarmos como posição correta as concepções de ensino de filosofia da filósofa Lídia Rodrigo (2021), cuja concepção de “aula de filosofia” está contida no manejo de “conteúdos filosóficos”. Em outras palavras, pressupõe-se que existam certos tipos de “conteúdos” essencialmente filosóficos, portanto uma aula de filosofia seria construída a partir destes “conteúdos”. Assim, uma consequência direta desta concepção seria excluir do ambiente da aula de filosofia tudo que não fosse tomado como “conteúdo filosófico”, o que seria, por si só, um problema. A história da filosofia está repleta de discussões sobre a presença, ou ausência, de caráter filosófico na obra de determinados autores, gerando problemas que constantemente são levantados por revisores do cânone filosófico. Em especial, muitas mulheres ao longo da história sofreram acusações de que suas obras eram “pouco filosóficas” ou “sem filosofia alguma” e, neste aspecto, também seriam descartadas do ambiente da sala de aula. Dessa forma, o problema de apoio a
uma concepção na qual se acredita que há conteúdos essencialmente filosóficos gera problemas de metodologia. Fora isso, é possível defender que tudo o que está relacionado, de algum modo, com a história da filosofia pode ser considerado um conteúdo filosófico. Se assim fosse considerado, outro problema apareceria: a banalização da aula de Filosofia. Um exemplo disso seria considerarmos uma partida de futebol hipotética realizada durante uma aula. Se colocarmos o nome dos times de “Time Platão” e o outro de “Time Aristóteles” (ambos considerados os filósofos de maior renome da filosofia, e que, portanto, seriam obviamente conteúdos filosóficos), isto transformaria essa partida de futebol em algo filosófico? Por sua vez, se essa partida fosse realizada no ambiente escolar, o que facilmente poderia ocorrer durante uma aula de educação física ou durante o recreio, este momento seria considerado uma aula de filosofia? A conclusão, mediante a perspectiva dos “conteúdos filosóficos” nos levaria a dizer que sim, ainda que intuitivamente uma boa parte das pessoas discordaria dessa classificação. Não negando a capacidade da filosofia de ser transmitida por muitas formas, é forçoso dizer que algo, caso tenha “conteúdo filosófico”, seja uma aula de filosofia. Não é o conteúdo que deveria definir uma aula de filosofia, mas sim uma “abordagem filosófica”. Neste sentido, filosofia é uma abordagem. Uma ação tomada quando confrontamos um problema, em especial um “problema conceitual”.
Não obstante, também cabe uma discussão sobre como o problema do ensino de filosofia repercute mediante algumas posições escolhidas, a serem exemplificadas logo a seguir. Tomada a posição de que uma aula de filosofia é aquela que trabalha conteúdos filosóficos, uma consequência é a sátira já demonstrada da “partida de futebol filosófica”. Agora, se tomada como uma abordagem, implica-se que existe uma forma única (ou um número limitado de formas), “a abordagem filosófica”, que define o que é filosófico ou não. Isto levaria à defesa do grupo que nega o “problema filosófico do ensino de filosofia”, visto que tal “abordagem filosófica” provavelmente se trataria de uma didática no ensino de filosofia, portanto seria um problema de didática e não filosófico. Por outro lado, também existe a posição que nega a existência de conteúdos filosóficos e também a existência de uma abordagem filosófica, cuja consequência óbvia seria a negação de toda filosofia, uma espécie de ceticismo. Por último, há possibilidade de defender a existência de conteúdos filosóficos e também de uma abordagem filosófica; contudo, isso seria negar a existência de um problema no ensino de filosofia, visto que, se sabemos quais conteúdos e como abordá-los, implicaria em saber resolver qualquer problema que se apresentasse dentro das nossas capacidades de resolvê-lo. Em outras palavras, o problema seria de outra ordem, provavelmente política ou moral. Portanto, resta ainda a pergunta: “Existe um problema filosófico no ensino de filosofia?”
A partir destas considerações, conclui-se que o problema filosófico do ensino de filosofia não se sustenta. Visto que não se limita a uma discussão conceitual sobre a aula, ainda que se apresente como tal, é levado a caminhos de impossibilidade de conclusões e meramente opinativos. O ensino, para ser tratado adequadamente em uma instituição, precisa de um mínimo de objetividade, que por sua vez leva a decisões que, por si só, eliminam a possibilidade de um problema filosófico no âmbito do ensino de filosofia. Desde que o professor assuma uma das posições possíveis sobre a natureza da filosofia, o ensino segue como qualquer outra disciplina presente na escola, como bem explicita a opinião do segundo
grupo, superando a existência de um problema conceitual. De igual modo, também não é necessário ao professor explicitar a existência de todas as outras formas de se interpretar o conceito de filosofia e, ainda que o faça, seria um problema considerá-las como igualmente válidas no âmbito da escola e, ainda que sejam, cabe ao Estado, e não aos professores, legislar sobre essa escolha. Em outras palavras, se o ensino de filosofia deveria considerar algumas definições de filosofia mais corretas do que outras, ou até considerá-las igualmente importantes, não é na sala de aula o local para externar esses problemas, mas nos ambientes de decisões políticas nacionais, como o congresso. Caso contrário, a decisão de ensinar filosofia de um certo modo, ou não, torna-se meramente pessoal, portanto, pouco democrática. Quando nos referimos a um ambiente onde a formação de novos cidadãos está em jogo, como as escolas, maiores são as consequências de uma decisão, que nunca pode ser puramente pessoal.
i Graduando em Filosofia pela Universidade Federal de Santa Maria
ii A palavra “grupo” não deve ser entendido como um coletivo organizado e homogêneo, mas apenas como um termo de generalização, ou seja, a opinião de mais de uma pessoa.
iii Entendo por “problema filosófico” três tipos de questões: “questões de fato” devidamente referidas à Filosofia e sua história, “questões conceituais”, envolvendo clarificações de conceitos e “questões de valor”, comumente relacionadas a área da Ética. O problema do ensino de Filosofia está relacionado com questões conceituais, pois é isso que os especialistas Cerletti (2009) e Lídia Rodrigo (2021) determinaram ser o problema.
iv Argumento tendo em vista a posição do professor Mario Ariel González Porta (2003).
v Seguindo mais uma vez a perspectiva de filosofia do Professor González Porta, a Filosofia parece se interessar muito mais pelo “melhoramento” das perguntas do que propriamente pelas respostas de cada indagação.
vi Essa frase em específico refere-se à capacidade da filosofia analítica de avançar o conhecimento filosófico por meio de definições mais precisas. Um exemplo é a epistemologia, que, a partir do desenvolvimento de seus conceitos, gerou um abandono da posição Fundamentalista Clássica em relação às crenças; trocadas por posições coerentistas ou fundamentalistas moderadas, como a de Laurence BonJour. Também pode ser considerada a superação do ceticismo radical, hoje muito improvável de ser defendido em uma argumentação filosófica.
Referências:
CERLETTI, Alejandro. O ensino de filosofia como problema filosófico. 1. ed. Autêntica, 2009.
RODRIGO, Lídia. Filosofia em Sala de aula: teoria e prática para o Ensino Médio. 1. ed. Autores Associados, 2021.
ARIEL GONZÁLEZ PORTA, Mario. A Filosofia a partir de seus problemas. 1. ed. Edições Loyola, 2003.